SERÁ QUE O DESENHO ANIMADO PEPPA PIG, PODE, DE FORMA ISOLADA, ACARRETAR TRANSTORNOS RELACIONADOS A AJUSTE SOCIAL EM CRIANÇAS?

Vem sendo divulgado um artigo sobre uma pesquisa de Harvard, onde os resultados apontam que o desenho animado Peppa Pig produz danos a personalidade das crianças. Será que essa notícia é verdadeira? Curiosa a respeito desse estudo, tentei encontra-lo para explorar seus resultados e não tive sucesso na busca. Segundo o site boato.org, meu fracasso nessa busca, talvez deva-se ao fato dessa notícia ser falsa, ou seja, não existe nenhum estudo de Harvard sobre Peppa Pig. Mas vou aproveitar esse momento para esclarecer alguns pontos sobre esse desenho que faz tanto sucesso com as crias.

Há algum tempo tenho visto artigos sobre a ‘má influência’ do desenho Peppa Pig, mas eu particularmente não vejo nada demais.. a gente sabe que a Peppa é uma porquinha egoísta e autoritária, que ela diz “bobinho” o tempo todo e explora o pobre papai [bobinho]… Mas a gente sabe também que características como birra e egoísmo são consideradas normais em crianças menores e que esse modo de operar jamais será instalado se já houver um repertório comportamental mais assertivo implantado [ou em implantação] na criança. Em outras palavras, esse padrão comportamental não se prolongará, se através da observação, imitação e acomodação dos valores e regras familiares, a criança já estiver formando seu próprio jeito de entender, sentir e comportar-se. Desse modo, o que é trivial para que se estabeleça padrões de comportamentos mais aceitos socialmente é 1) que os outros significativos [família, cuidadores, amigos e etc] comportem-se de forma adequada; e 2) que a criança possa conviver com os familiares – com tempo e qualidade de interação suficiente – para que possa reconhecer neles os outros significativos.

Outra coisa: falar ‘bobinho’ pelo menos para mim não é xingar… eu acho que a criança tem o direito de expressar sentimentos como raiva, tristeza, dor e etc.. então, se ela acha que alguém fez algo bobo eu não vejo melhor maneira de uma criança pequena conseguir elaborar um raciocínio que transmita seu sentimento do que dizendo ‘bobinho’… ela também pode chorar, bater, rolar no chão [e tudo bem, viu?], pois é o pai/mãe quem deve, nesse momento, entender o que a criança sente e tentar ensiná-la formas mais assertivas de se expressar. Não é por que uma criança sai chorando do parquinho, birra por um brinquedo em uma loja ou chora depois de tomar injeção – ou chama alguém de bobinho – que ela deve ser repreendida e reprimida [até por que a repreensão em forma de atenção às vezes atua como reforço positivo].. é preciso sensibilidade, bom senso e segurança [um dia a gente chega lá – espero]! Agora, crianças que não têm diálogo [diálogo de verdade] com os pais, não participam das rotinas familiares e durante o pouco tempo que ficam em casa, só olham para a TV, ficam sem referência e aí sim talvez a porquinha Peppa possa vir a se tornar não uma má influência, mas sim um alerta onde o calo aperta!

Agora, eu tenho sim uma certa “pulga atrás da orelha” com as barbies/monsters e etc, em especial para crianças menores, pois nesses desenhos não se mostra família nem relações familiares próximas, exibe um padrão corporal anoréxico, faz apologia ao consumismo, tem conteúdos que envolve conflitos emocionais advindos de relações amorosas [namoro/paquera] de compreensão inalcançável para crianças menores… masssss mesmo assim não me oponho que minha filha veja os filminhos [até pq ela iria virar a estranha no ninho entre as amiguinhas, assim como quando ela era bebê que eu não conhecia a galinha pintada nem o patati e só passava baby einstein e baby tv]. Nesse caso, o que posso fazer é tentar chamar a atenção dela para outros desenhos e programas – mais educativos. Nessa hora assistir junto com o pai/mãe é bastante motivador para a criança.

Enfim, acho que a gente tem que parar de achar que nossos pequenos tem que ser perfeitos, parar de achar defeitos ‘no outro’ e olhar para dentro de casa e ver como é que tá a quantidade e qualidade de tempo que passamos como eles!!!

Amamos nossas crias e com certeza queremos sempre o melhor para elas.

Ana, psicóloga infantil e mamãe bobinha da Júlia (7 anos) e da Paloma (1 ano).

Ana Paula Veiga Cabral

Psicóloga Infantil-CRP 08/18064
Especialista em Neuropsicologia – UNICAMP

Fonte: Ampla Psicologia

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